quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Premonição? Ou talvez não.

No dia 2 de Dezembro de 1994, com Carlos Queiroz a treinar o Sporting e a “consumir” o potencial de sucesso adquirido com a conquista dos dois campeonatos mundiais de sub-19, o autor destas linhas iniciava a sua participação no concurso televisivo, da SIC, “Os Donos do Jogo”, conduzido por Jorge Gabriel.
Com a finalidade de descontrair e apresentar, sumariamente, os concorrentes, Jorge Gabriel começa por questionar o signatário, nos seguintes termos:
JG: «O Luís é do Sporting e diz que o Sporting não vai conseguir ser campeão?»
Luís: «Oxalá consiga, mas eu não acredito no Carlos Queiroz, como treinador de futebol».
Colocar em causa os conhecimentos técnicos de Queiroz, em finais de 1994, era no mínimo politicamente incorrecto. Acusá-lo de incompetente era não só uma blasfémia, mas o suficiente para ser apelidado de ignorante, em termos futebolísticos.
Volvidos mais de quinze anos e com os fracassos desportivos sobejamente conhecidos, no dia em que a F.P.F. aponta a porta de saída ao seleccionador nacional, alguns classificam a frase como uma premonição ou pressentimento. Outros, mais identificados, sabem não se tratar de qualquer tipo de intuição ou palpite mas, seguramente, muito mais que isso.

sábado, 4 de setembro de 2010

A minha homenagem

Era habitual, nos bairros típicos duma Lisboa de meados do século passado, os garotos serem apelidados, pelos seus mais directos companheiros de brincadeiras, com alcunhas, por vezes depreciativas, geralmente derivadas de certa particularidade física ou moral. Praticamente nado e criado no castiço Bairro de Alcântara, onde me mantive até quase adulto, não poderia fugir aquele estigma. Assim, e logo que atingi a idade mínima para dividir os jogos e divertimentos de rua com rapazes da minha idade, fui alcunhado de “kilociclos”, fruto da ligeireza e velocidade de pernas evidenciadas por um garoto que pesava alguns quilos menos que os principais competidores.
O chegar dos anos e o aspecto de “espigadote” trouxeram mais alguns sobrenomes, e a referência à garrafa da “Canadá Dry” não foi esquecida.
Adolescente, longilíneo, sempre pronto para um bom “jogo de trapeira” e com forte propensão para os “golos de cabeça”, a entrada no Liceu D. João de Castro iria coincidir com uma alcunha que me iria marcar para o resto da vida. Simplesmente, TORRES.
Estávamos no início da década de sessenta do século passado e no Benfica começava a despontar, não só o herdeiro natural de José Águas mas, principalmente, um dos maiores goleadores do futebol português, a quem Eusébio “deve” muitos dos golos conseguidos, proporcionados pelos “amortis de cabeça” do bom gigante, José Torres.
Mais tarde, princípios dos anos oitenta, na casa de um amigo comum tive a felicidade de conhecer o ex-jogador. Trocámos algumas palavras de circunstância e abordámos alguns temas futebolísticos de então. Também não deixei passar a oportunidade de referir a importância que o seu apelido teve no meu percurso de vida, tendo ele acrescentado, com naturalidade, que com o seu filho mais velho acontecia situação semelhante, uma vez que, na escola que frequentava, era conhecido pelo “Chico Gordo”, goleador da época.
Vai hoje a enterrar um homem bom, simples, brincalhão, com sentido de humor, gigante futebolista e grande glória do futebol português, que jamais esquecerei.
É com orgulho que, actualmente, após mais de quarenta anos passados do tempo liceal, cruzando-me com colegas dos tempos passados, ainda sou apelidado de Torres em virtude de desconhecerem que tal epíteto não consta do meu bilhete de identidade.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

«Ponga los dos!»

Os conhecimentos técnicos, a experiência e a perspicácia colocadas por Jorge Jesus, na escolha dos homens para a defender a baliza benfiquista, parecem não ter sido os mais adequados nem estão a dar os “frutos” desejados. De facto, quando se privilegia a altura do “keeper”, em detrimento da colocação entre os postes, da rapidez de reflexos, da determinação nos cruzamentos, do tempo de saída da baliza, da estrutura psicológica para suportar a camisola de um grande clube, etc, o risco de falhar na escolha é muito elevado.
Com o parecer do técnico a conceder especial importância à estatura do guarda-redes, a adquirir, o caricato aconteceu e, presentemente, o Benfica possui no seu plantel dois guardiões (Júlio César e Roberto) com altura bastante acima do 1,80 m, mas com evidentes lacunas técnicas em determinadas áreas e, provavelmente, difíceis de colmatar.
No encontro realizado com o Vitória de Setúbal, respeitante à 3ª jornada da Liga Zon Sagres, e depois uma série de exibições menos conseguidas de Roberto, Jorge Jesus concedeu a titularidade da baliza encarnada ao brasileiro Júlio César.
Contudo a meio da primeira parte Júlio César, a exibir uma total inaptidão para o jogo de pés, quis adornar um lance, baralhou-se e do desentendimento entre Maxi Pereira e o guardião brasileiro surgiu um penalty, que originou a expulsão deste e implicou o regresso à baliza do mal afamado Roberto. As contingências do jogo obrigaram o espanhol a entrar em campo, mas o penalty defendido não faz dele melhor guarda-redes e as exibições pouco conseguidas, nos últimos tempos, não vão ser esquecidas tão depressa.
Quando Roberto saltou do banco, chamado inesperadamente ao jogo, para substituir um Júlio César com características, qualidades e defeitos semelhantes, para alguns dos que estavam a presenciar o encontro, veio à memoria um episódio bastas vezes divulgado pelos órgãos de comunicação desportiva e passado na tristonha tarde, para o futebol português, do dia de 11 de Março de 1934.
Tudo aconteceu em Madrid, no Estádio de Chamartin, onde a Selecção Nacional, de futebol foi derrotada pela Espanha por 9-0.
Partida importante, de apuramento para o Campeonato do Mundo, onde nem faltou a presença do Presidente da República espanhola, Alcalá Zamora, que assistiu ao desafio na tribuna do estádio.
Ribeiro dos Reis, o seleccionador nacional, não acompanhou a equipa, na viagem a Espanha porque a mãe adoecera gravemente. Acabou por ser Ricardo Ornelas, à última da hora, a ocupar o seu lugar, mas com as tácticas combinadas antes da partida.
Com o resultado já em 5-0, Soares dos Reis, então guardião do F. C. Porto simulou uma lesão e foi substituído na baliza pelo benfiquista Augusto Amaro, nas bancadas os espanhóis gritavam, provocantes, em alucinante chacota - «Ponga los dos, ponga los dos...»
Como os tempos eram outros, depois de ter perdido numa goleada humilhante, Ribeiro dos Reis ganhou horror ao cargo e nunca mais quis ser seleccionador.
Cena caricata aconteceu no dia seguinte ao encontro, onde um jogador português, ao ser interpelado pelo criado do hotel castelhano com o habitual «Desayano ?», respondeu: - Des a yuno, não. Nove a zero!

sábado, 14 de agosto de 2010

O Deslumbrado

A contratação de Jorge Jesus, no inicio da época de 2009-2010, como responsável máximo da equipa de futebol do Benfica, proporcionou ao técnico não só uma melhoria significativa das suas condições de trabalho, mas também uma responsabilização muito acima dos níveis a que estava habituado, nos clubes por onde tinha passado.
Fascinado pela oportunidade concedida, de treinar um grande clube, o técnico começou, como é habitual, por exigir a aquisição de alguns atletas que lhe oferecessem garantias de implementação do sistema de jogo, preferencialmente, utilizado (losango). Assim, começam a chegar à Luz futebolistas da confiança do treinador mas de duvidosa qualidade. Se é certo que alguns foram contratados à revelia do técnico, em fase anterior à sua chegada, a maioria foram-no com a sua total conivência e aconselhamento. Estranha-se que, jogadores como Shaffer, Patric, Kerrison, Júlio César, Weldon, Felipe Meneses, César Peixoto e Eder Luís, só para citar alguns, com poucas condições para jogar num clube com as aspirações do Benfica, não tenham sido objecto de uma cuidadosa observação e uma detalhada análise das suas reais potencialidades, quer por parte da equipa técnica quer por parte dos dirigentes encarnados. Como era de esperar os desempenhos, de alguns futebolistas, não foram os mais conseguidos, mas como o clube encarnado conseguiu o titulo máximo do futebol nacional, as duvidosas escolhas e as desastrosas opções acabaram por se diluir à medida que os resultados positivos iam sendo alcançados.
Um título de campeão, pouca habituação ao êxito, possuidor de uma cultura débil com evidentes tiques de “novo riquismo” encontravam-se reunidas as condições para que um fácil deslumbramento se apoderasse de Jorge Jesus. Também as prestações de Fábio Coentrão, ao longo da temporada, que levaram o técnico encarnado a chamar a si os louros da transformação de um mediano médio-ala, num excelente defesa-esquerdo, contribuíram para o encantamento.
Iniciada a pré-temporada e consumado o abandono de Di Maria, elemento fundamental na dinâmica imposta na interpretação do “losango”, tornava-se imperioso “ir ao mercado” tentar colmatar a saída de tão importante elemento. Mais uma vez, a perspicácia e o sentido de análise das potencialidaes, de eventuais candidatos, não foram os mais eficazes. De facto, Gaitan está longe de preencher a vaga deixada por Di Maria, uma vez que, o argentino oriundo do Boca Juniors se tem revelado, nos poucos jogos já disputados, um esquerdino de bom recorte técnico mas com evidentes dificuldades de adaptação ao lugar de médio-ala-esquerdo, com as suas qualidades a definem-no como um elemento vocacionado para desempenhar o papel de nº 10.
Depois de cometido mais um “erro de casting”, e nem convém abordar a problemática dos guarda-redes Quim, Júlio César e Roberto, Jorge Jesus, presentemente, terá de recorrer a três soluções “em carteira”:
- Dar a mão à palmatória e insiste com os dirigentes no sentido de rectificar algumas das asneiras cometidas, abrindo mais uma vez os “cordões à bolsa” para a aquisição de um ala/extremo, com características idênticas ás evidenciadas por Di Maria;
- Alterar o sistema táctico para 4x3x3, “mandando às ortigas” o tão mecanizado losango, que tão bons resultados proporcionou, na época transacta, mantendo Fábio Coentrão na posição de defesa-esquerdo;
- Ou, decidir trabalhar o meio-campo com Fábio na ala esquerda e César Peixoto a lateral-esquerdo, solução que retardou o “aparecimento” do vila-condense, e que retira dinâmica e agressividade a um jogador que necessita de espaço para “embalar” até à linha de fundo.
Curioso verificar que, após o técnico encarnado se ter auto-elogiado pela “transformação” operada, em seis meses, no rendimento de Fábio Coentrão classificando-o, inclusive, como o melhor defesa esquerdo da Europa, veja-se na contingência, por falta de visão ou ausência de perspicácia na escolha de novos elementos, de fazer regressar o esquerdino ao seu antigo posto de médio-ala que, em épocas não muito distantes, nunca o projectou para alto nível exibicional.
A derrota na final da Supertaça frente ao FC Porto terá sido “um dos males que vêm por bem”, ao evidenciar algumas das carências existentes no plantel encarnado e que os seus responsáveis máximos não poderão ignorar. Por outro lado, está a contribuir para “fazer regressar Jesus à Terra”, tornando-o mais cuidadoso no aconselhamento de novos futebolistas, afastando-o da arrogância descabida que, ultimamente, o tem caracterizado apontando-lhe o caminho da humildade, tão necessária nas criaturas com presente, mas de passado pouco mediático.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Meu caro, Paulo Sérgio,

Embora acompanhe o futebol leonino, exaustivamente, há sensivelmente cinquenta anos, é a primeira vez que me dirijo, a um treinador do meu clube. E porque o faço?
Primeiro porque o seu passado, quer como futebolista quer como técnico, justificam admiração e respeito. Depois porque a forma frontal e digna como tem estado no futebol, merecem todo meu apreço. Também, porque gostaria de ver implementada, na equipa de futebol do Sporting, a mesma opção táctica-estratégia que na última temporada, foi a responsável pela brilhante campanha do Vitória de Guimarães.
Por último, penso que o meu passado sportinguista, me concede a legitimidade necessária e suficiente para, após ter visionado os encontros disputados, na fase de preparação para a temporada que se avizinha, tecer algumas considerações, prematuras talvez, acerca da equipa de futebol que se encontra em período de formação e de assimilação de novos métodos.
Não gostaria, no entanto, que as minhas palavras fossem interpretadas como intromissão na árdua tarefa que o espera, mas sim como um alerta para determinados casos pontuais que poderão ser importantes na diferença entre uma equipa ganhadora e outra, normalmente, arredada dos títulos.
Foi com satisfação que, ao presenciar os encontros realizados em Evian-les-Bains, constatei a total rejeição ao “malogrado losango” tão responsável pelos insucessos desportivos do futebol sénior leonino, nas últimas temporadas. Congratulei-me, igualmente, com a decisão do Paulo Sérgio tentar implementar um sistema táctico que contemple a presença de dois “alas bem abertos” (em 4x4x2 ou 4x3x3), de forma a dar profundidade ao jogo atacante da equipa, evitando o seu “afunilamento” e os paupérrimos espectáculos que os adeptos sportinguistas têm presenciado.
Na pré-época, os resultados pouco contam, mas servem sempre para moralização do grupo de trabalho e como não acontecem por mero acaso, ajudam para a identificação de desvios e imperfeições, bem como as respectivas correcções, afinações e adaptação dos novos elementos.
Também, tenho constatado que, o Paulo Sérgio tem optado, preferencialmente, pelo 4x4x2, esquema táctico que permite o flanqueamento do jogo, mas que obriga à presença de dois médios-centro, mais posicionais e com elevado sentido de marcação, com vista a libertar os médios-ala para as acções ofensivas de “linha de fundo”, que poderão representar “meio-golo” para os futebolistas que jogam de frente para a baliza adversária.
A aquisição mais sonante do presente defeso foi sem dúvida Maniche. Jogador experiente, na plenitude das suas capacidades físico-técnicas, chega ao Sporting evidenciando um espírito competitivo impressionante e uma “fome de bola” digna de um adolescente. No entanto, aos 33 anos, dificilmente suportará o desgaste de uma temporada a desempenhar as funções de médio-centro, com preocupações mais defensivas, num sistema 4x4x2. Maniche é um futebolista, tecnicamente evoluído, calhado na perfeição para fazer a ligação entre a defesa e o ataque (camisola nº 8), preferencialmente, num esquema de 4x3x3, uma vez que necessita da presença de médios com características defensivas que lhe “cubram as costas”, quando avança no terreno, no apoio aos avançados ou ensaiando o remate de meia-distância.
Com a titularidade de Maniche, quase assegurada, a utilização de um sistema 4x3x3, poderia “juntar o útil ao agradável” e, para além de elevar os índices de desempenho do jogador, contribuir para a resolução, de parte, do problema defensivo, manifestado pelo excesso de golos sofridos.
De facto, a exigência de um médio-centro-defensivo (Pedro Mendes) e a, eventual, colocação de Miguel Veloso a completar o trio de centro-campistas seria de primordial importância para o rigor defensivo, sabendo-se que, Miguel foi central de raiz e que o seu sentido posicional ajuda a “fechar” junto aos centrais. Já o trinco Pedro Mendes é, facilmente, adaptável a qualquer sistema táctico.
O chileno Valdês anunciado como extremo, para ambos os lados, evidencia uma mobilidade, poder de remate e excelentes pormenores técnicos que o denunciam como um médio-centro-ofensivo (camisola nº 10), vocacionado para o apoio ao ponta-de-lança, eventualmente, utilizável num tridente intermediário mais ofensivo. Quem, teoricamente, poderia desempenhar também essa missão seria o seu compatriota, Matias Fernandez, mas por deficiente adaptação ao futebol português ou por falta de capacidade para explanar a suas capacidades futebolísticas, vê o seu tempo em Alvalade, a esgotar-se.
Louvando, mais uma vez, a presença de dois médios-ala/extremos, o certo é que não têm surgido oportunidades de golo que conduzam a equipa a um elevado poder de concretização. Provavelmente, a justificação para tal facto, estará nos intervenientes, uma vez que, devido às carências existentes, no actual plantel, o Paulo Sérgio tem-se “desenrascado” com as adaptações possíveis.
No flanco esquerdo, Yannick Djaló é um jogador rápido, mas com características tipicamente para o contra-ataque e o seu sentido de baliza, “obriga-o” a flectir para dentro do terreno provocando o congestionamento da entrada da grande-área adversária e retirando profundidade e fluidez ao futebol praticado. Também, no flanco direito do ataque, acontece qualquer coisa de semelhante com a colocação de Simon Vukcevic, encostado à linha lateral. Jogador canhoto que, no salutar aproveitamento do seu poderoso remate e na tentativa de “aumentar” a dimensão da baliza adversária descai, com frequência, para a meia-lua, agravando o “tráfego” naquela zona, esquecendo-se da linha de fundo.
Com a ausência prolongada, por motivos físicos, de Izmailov e da provável saída de Yannick, aconselha-se a aquisição de dois extremos-puros. Talvez Sinama-Pongolle possa vir a ser solução alternativa, temporária, para um dos flancos.
A opção de jogar com dois elementos na frente de ataque, não tem resultado plenamente e o poder de concretização tem estado afastado. De facto, Hélder Postiga e Saleiro pouca eficácia têm demonstrado. Fortes fisicamente, de remate espontâneo e bons cabeceadores, teoricamente, possuem características ideais para a função e, talvez, por esse motivo não se completem. Em termos de produtividade, Hélder Postiga continua afastado dos golos, tendo entrado na “reserva de tolerância” em relação ao seu trajecto em Alvalade. Também Carlos Saleiro, com as oportunidades que lhe têm sido concedidas, evidencia ausência de “qualquer coisa” (será sal?) para poder singrar ao mais alto nível.
Também, não estou a “ver” Liedson, com a idade com que Cristo morreu, a “ressuscitar” para os golos e a lutar pela conquista “Bola de Prata”, uma vez que, encontra-se acomodado e com uma margem de “aceitação ao erro” ainda elevada, por parte dos adeptos sportinguistas.
Agradável surpresa tem sido o desconhecido Salomão, senhor de finta curta e de enorme confiança no um-para-um, aconselhando-se a sua entrada “a espaços”, no decurso da temporada. Também o jovem André Santos, depois de uma época plenamente conseguida em Leiria, espreita a titularidade se as opções técnicas, em temos de sistemas, se mantiverem.
Uma das questões mais problemáticas do plantel leonino encontra-se na posição de guarda-redes. Actualmente coloca-se um dilema, à equipa técnica. Ou continuar com Rui Patrício, “feito” na Academia, com compleição física quase perfeita para o lugar, mas que as quatro temporadas que leva como titular não têm reflectido uma evolução e acumulação de experiência consentâneas com os jogos disputados, ou apostar na aquisição de um novo “keeper” que, forçosamente, iria sentenciar o “final de carreira”, em Alvalade, do jovem guardião, à semelhança daquilo que aconteceu com Moreira, no Benfica, mas que poderia transmitir maior estabilidade e segurança ao sector mais recuado.
Em resumo, poder-se-á concluir que: Na zona defensiva, o clube encontra-se servido, com João Pereira e Evaldo a ocupar as laterais, mas com suplentes sem o mesmo nível futebolístico. De facto na direita, Abel, está na fase decrescente da sua carreira, mas sempre espreitando uma oportunidade de “ir a jogo”, pois a sua utilidade não se discute. Grimi, na esquerda, ainda não justificou a dispendiosa aquisição e com Evaldo como concorrente directo limitar-se-á a cumprir o contrato. No centro, Daniel Carriço, Polga e Tonel são garantia de qualidade e ambição de vencer. Torsiglieri e Nuno André Coelho terão de “mostrar serviço” que justifique a sua escolha como alternativa à zona central da defesa.
A zona intermediária terá, forçosamente, de ser reforçada, após o abandono de João Moutinho e a, iminente, saída de Miguel Veloso. Os dois trincos, Pedro Mendes e André Santos, embora de baixa envergadura física, poderão chegar para as “encomendas”. A adaptação de Nuno André Coelho, Daniel Carriço ou mesmo Tonel, à posição de médio defensivo, não parece viável, pois são jogadores “de ficar”, com rotina de centrais, não se adiantando no terreno com a oportunidade que é exigido a um trinco moderno do “tipo box to box”.
O ataque, não poderá estar dependente de um Liedson a caminhar para a veterania, de um Hélder Postiga perdulário, de um Saleiro pouco “condimentado” ou de um Sinama-Pongolle pouco imaginativo. Ou os avançados são mais eficazes e concretizadores ou, necessariamente, terá de se adquirir novos elementos.
Acredito na competência e capacidade do Paulo Sérgio para tomar as opções estratégicas mais consentâneas com as características dos futebolistas que formam o plantel do Sporting, de forma a conduzir o clube ao título que os adeptos tanto anseiam. Para o Paulo seria não só o reconhecimento das suas reais qualidades como o coroar de um trabalho profícuo e do qual, eternamente, se orgulharia.

Saudações leoninas do Luso.


Lisboa, 26 de Julho de 2010


PS: Se o tempo escassear e a paciência se mostrar insuficiente espero que, pelo menos, leia esta minha missiva no final da temporada retirando, obviamente tarde de mais, as devidas ilações.

sábado, 17 de julho de 2010

Ínclita geração?

Uma geração de jogadores, eventualmente, predestinados para a prática do futebol, classificada como “geração de ouro”, nunca poderá ficar limitada à conquista de competições ao nível das camadas mais jovens, terá, forçosamente, de justificar tal apelido ao longo dos anos subsequentes. Não é “geração de ouro” quem quer, mas quem faz por isso.
Em Portugal, foi facílimo qualificar a geração formada, entre outros, por Vitor Baia, Fernando Couto, Rui Costa, João Pinto, Abel Xavier, Paulo Sousa e Luís Figo, mais tarde considerado como o melhor jogador do mundo, como a “geração de ouro” que o professor Carlos Queiroz conduziu à conquista de dois títulos mundiais sub-19. Independentemente da indiscutível categoria patenteada por alguns dos seus elementos, o tempo veio confirmar que aquela geração de futebolistas portugueses, em termos de equipa e de títulos conquistados, se iria manifestar como uma verdadeira desilusão, nunca conseguindo corresponder ás expectativas criadas, em seu redor, tendo, inclusivamente, sido vencida na final do Euro 2004, disputada na sua própria casa.
Mais uma vez o decepcionante desempenho e descalabro protagonizado pelo futebol português, no Mundial da África do Sul, onde uma selecção pouco ambiciosa, que abdicou da condução do jogo e denotou uma total incapacidade para pressionar os adversários, não foi suficiente para que, lestos, os responsáveis federativos, aparecessem a desculpabilizar os seus elementos e o próprio seleccionador, utilizando a derrota e eliminação, frente à vizinha Espanha (0-1), que acabaria por conquistar o titulo máximo mundial, como um prémio de consolação.
Desconhece-se como os “nuestros hermanos”, denominaram o grupo de futebolistas que, na Nigéria, há alguns anos atrás, venceram o Mundial de Sub-20, mas sabe-se que, aqueles jovens futebolistas formaram o conjunto-base da selecção que, nos dois últimos anos, se sagrou campeã da Europa e do Mundo de futebol.
Para deleite daqueles que gostam de futebol, a equipa espanhola nunca abdica do futebol “tiki-taka”, baseado numa teia ardilosa construída por Guardiola, no Barca e, agora, aproveitada por Vicente Del Bosque que, toma conta do jogo, consegue a “posse de bola”, impondo uma forma de trocar o esférico que “chateia”, corrói e adormece os adversários, até ao ponto de não sentirem a estucada final dada pelos “matadores”, David Villa ou Fernando Torres.
Na África do Sul, nem a mais afinada das “vuvuzelas” destabilizou o futebol rendilhado da Espanha fruto da imaginação de Pedro, da velocidade de Jesus Navas, do talento de Villa ou da genialidade com que Iniesta aparece, na área contrária, a finalizar. Mas Xavier Hernández, mais conhecido por Xavi, é não só o mais importante futebolista da selecção espanhola como também o principal responsável pelo carrossel praticado no seu Barcelona. É ele que pega na bola, que marca o ritmo de jogo e faz funcionar a equipa. Um verdadeiro maestro, um verdadeiro líder, este catalão.
Há quem afirme que, as semelhanças ou diferenças existentes entre o futebol português e o espanhol se encontram reflectidas, no toureio apeado, da “Festa Brava”, tão apreciada nos respectivos países.
De facto, tanto em Portugal como em Espanha os toureiros manifestam coragem, técnica similar, mestria e a necessária bravura, para enfrentar o touro, desfrutando do prazer que a profissão encerra. Contudo, nas praças espanholas para além da exibição da arte taurina o touro “leva” a estucada final, morrendo na arena. Por analogia, se poderá concluir que o futebol ibérico é feito de técnica, exibição e espectáculo, só que quem marca é quem, normalmente, sai vencedor. Portugal recreia-se. A Espanha recreia-se e vence, marcando golo, ou seja, mata o touro na praça.