quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Morte anunciada

«É preciso varrer a porcaria que há na Federação!». Foi com esta frase polémica proferida, em San Siro, em finais de 1993, que Carlos Queiroz abandonou o cargo de seleccionador nacional de futebol, após derrota e afastamento da Selecção Nacional, da fase final do mundial dos EUA.
Concretizando um tremendo erro de Gilberto Madail, em Julho de 2008, o mesmo Carlos Queiroz aceitava ser de novo seleccionador nacional, rubricando um contrato válido por quatro anos, com um ordenado de 1,6 milhões de euros por ano e, provavelmente por isto, aceitava passar a fazer parte da “porcaria” existente na F.P.F..
A segunda passagem de Queiroz pela selecção nacional de futebol veio confirmar, mais uma vez, a falta de aptidão do técnico para o desempenho do lugar, embora tivesse sido considerada uma óptima escolha não só pelo presidente da Federação, mas também por todos aqueles que, iludidos pelo discurso cientifico do professor, não apreciavam a forma como o grupo era conduzido por Scolari.
Com a sombra do técnico brasileiro sempre por perto, para facilitar a tarefa de afirmação e valorização do trabalho de Carlos Queiroz, à frente da Selecção Nacional, havia que desprezar os últimos 15 anos onde Portugal apenas falhou uma qualificação para as oito fases finais realizadas, sempre com brilhantes desempenhos como aconteceu no Euro 2000 (Humberto Coelho), no Euro 2004, no Mundial 2006 e no Euro 2008, onde o trabalho fantástico de Luiz Felipe Scolari foi complementado com um feliz casamento entre a Selecção e os adeptos, mas que acabou em divórcio após a chegada de Queiroz, por falta de inteligência emocional do professor.
Mesmo para os mais optimistas a fase de apuramento para o Mundial 2010 tinha demonstrado que Carlos Queiroz não era, efectivamente, o homem certo para comandar o seleccionado português. Denunciando uma evidente falta de liderança a nível técnico, arranjou problemas com dirigentes e médicos que, facilmente, se estenderam aos jogadores, não sendo por mero acaso que, após o afastamento da selecção da África do Sul, Ronaldo, farto de andar sozinho lá na frente, e Deco, que não merecia uma despedida assim, se tenham manifestado de uma forma desabrida e azeda, fazendo supor a existência de alguma turbulência, no seio do grupo de trabalho.
Para além de se questionar as apostas de Carlos Queiroz, a quem foram satisfeitos todos os desejos e concedidos todos os meios solicitados, inclusive, verificaram-se mudanças, sem qualquer sentido, na estrutura das equipas técnicas das diversas selecções de futebol jovem, com a introdução de técnicos e gente da confiança do seleccionador nacional, sempre com o argumento demagógico de defesa do “modelo” e da reestruturação das selecções, esquecendo-se que ao nível das camadas jovens são os clubes os grandes responsáveis pelo aparecimento de novos valores.
Por outro lado, e desde que atingiu a independência financeira, fruto de uma carreira internacional onde foram maiores as indemnizações conseguidas, por despedimentos precoces, que os resultados desportivos alcançados, Queiroz começou a assumir posições desagradáveis, algumas de difícil explicação. A arrogância passou a ser mais evidente, o discurso e as atitudes mais agressivas, e a “máscara” da hipocrisia, que o tinha conduzido a lugares inimagináveis (ex.: Real Madrid), começou a cair, pese o esforço e propaganda dos seus fieis escudeiros, de jornalistas embevecidos pelo seu dom oratório e dos adeptos iludidos pela simpatia e pela imagem de competência, realçada por alguns futebolistas que, ainda garotos, tinham sido campeões mundiais.
Facto curioso e elucidativo, do carácter do professor e que contraria, em parte, a imagem que continuamente tenta “passar”, é referido na decisão do Tribunal Cível de Oeiras, que em Dezembro de 2008, condenou Carlos Queiroz a pagar 56 250 dólares a Salem Jawad, empresário que, em 1998, o levou para os Emiratos Árabes Unidos. O tribunal deu como provado que Queiroz recebeu mais tarde o dinheiro da rescisão de contrato e não pagou a comissão a que o empresário teria direito. A sentença refere ainda que, Queiroz negou inicialmente ter recebido essa indemnização, vindo a confirmá-lo depois, sendo acusado, por este motivo, de «conduta integradora de litigância de má-fé». Ou seja acusado de ter mentido em tribunal.
Num Portugal de brandos costumes com um seleccionador incapaz de motivar jogadores e adeptos, com uma selecção a deixar de jogar para ganhar, que ia deixando Portugal fora do Mundial de 2010, ainda se permite que sejam “branqueadas” as asneiras cometidas, dizendo que a participação no mundial foi positiva e que a equipa fez uma excelente exibição frente à Espanha. Para “ajudar à festa”, mais tarde saber-se-ia que, mesmo a receber 7,2 milhões de euros de prémio da FIFA pela presença da Selecção Nacional nos oitavos-de-final, a F.P.F. conseguiu apurar um prejuízo de 1 milhão de euros com a campanha da África do Sul! E o seleccionador Carlos Queiroz com direito a 10 por cento desse prémio: ou seja, uns escandalosos 720 mil euros!
Tudo acontece devido à falta de liderança de um Gilberto Madail, distraído e embriagado pelas falinhas mansas do professor, que com ele fez sempre uma espécie de chantagem psicológica, ao ponto do presidente da Federação ser incapaz de negar qualquer tipo de mordomia (bons hotéis, estágio em altitude, adjuntos locais, missões de observação, etc.), caindo no ridículo de ter de premiar, milionáriamente, um resultado julgado medíocre pela maioria dos portugueses.
Após uma serie de atitudes tão inesperadas como incompreensíveis, aliada a resultados pouco conseguidos, termina sem honra e sem glória o ciclo Queiroz na Selecção Nacional, depois de ter agredido um comentador desportivo, em plena sala de embarque do aeroporto, insultado uma brigada anti-doping, de ter apelidado de amadora a estrutura da F.P.F e de ter dirigido impropérios a um jornalista do “Sol”. Posteriormente, associou a imagem do “polvo” ao vice-presidente da federação, que afinal era uma “nuvem”, porque os muitos anos que passou no estrangeiro (17 anos), a iludir o futebol de outras paragens, originaram atitudes de agressividade, de intolerância, de falta de humildade que o distanciaram tanto dos portugueses e o tornaram tão elitista que a solução talvez estivesse em mudar o País, para agradar a tão ilustre criatura.
De facto, a tranquilidade, a discrição e o ar metódico do passado transformaram-se e deram origem a um Carlos Queiroz polémico, nervoso e onde situações menos felizes como as que esteve envolvido nunca se tinham manifestado, do mesmo modo, em Madrid ou em Manchester.
Cada vez mais isolado, ocultando a falta de comando sobre os jogadores e denunciando uma confrangedora ausência de rasgo táctico Queiroz, quer queiram quer não, sempre foi um perdedor cuja a arrogância e a vaidade nunca lhe deram tempo para ouvir as criticas, pois a sua atenção sempre foi só para aqueles que o apoiaram.
É lamentável que, tenha sido preciso desperdiçar cinco pontos frente ao Chipre e à Noruega, complicando a qualificação para o Europeu, num grupo relativamente fácil, para se aperceberem que Queiroz não tinha condições para continuar, embora, em tempos não muito distantes tenha afirmado que: «Daqui só saio morto!».
A novela Queiroz à frente da selecção, chegou ao fim e com ela a desmistificação do empenho na formação e na descoberta de novos talentos saídos, muitos deles, de nacionalizações feitas à pressa, por um individuo que a maioria dos portugueses está farta de aturar.


Morte anunciada

«É preciso varrer a porcaria que há na Federação!».
Foi com esta frase polémica proferida, em San Siro, em finais de 1993, que Carlos Queiroz abandonou o cargo de seleccionador nacional de futebol, após derrota e afastamento da Selecção Nacional, da fase final do mundial dos EUA.
Concretizando um tremendo erro de Gilberto Madail, em Julho de 2008, o mesmo Carlos Queiroz aceitava ser de novo seleccionador nacional, rubricando um contrato válido por quatro anos, com um ordenado de 1,6 milhões de euros por ano e, provavelmente por isto, aceitava passar a fazer parte da “porcaria” existente na F.P.F..
A segunda passagem de Queiroz pela selecção nacional de futebol veio confirmar, mais uma vez, a falta de aptidão do técnico para o desempenho do lugar, embora tivesse sido considerada uma óptima escolha não só pelo presidente da Federação, mas também por todos aqueles que, iludidos pelo discurso cientifico do professor, não apreciavam a forma como o grupo era conduzido por Scolari.
Com a sombra do técnico brasileiro sempre por perto, para facilitar a tarefa de afirmação e valorização do trabalho de Carlos Queiroz, à frente da Selecção Nacional, havia que desprezar os últimos 15 anos onde Portugal apenas falhou uma qualificação para as oito fases finais realizadas, sempre com brilhantes desempenhos como aconteceu no Euro 2000 (Humberto Coelho), no Euro 2004, no Mundial 2006 e no Euro 2008, onde o trabalho fantástico de Luiz Felipe Scolari foi complementado com um feliz casamento entre a Selecção e os adeptos, mas que acabou em divórcio após a chegada de Queiroz, por falta de inteligência emocional do professor.
Mesmo para os mais optimistas a fase de apuramento para o Mundial 2010 tinha demonstrado que Carlos Queiroz não era, efectivamente, o homem certo para comandar o seleccionado português. Denunciando uma evidente falta de liderança a nível técnico, arranjou problemas com dirigentes e médicos que, facilmente, se estenderam aos jogadores, não sendo por mero acaso que, após o afastamento da selecção da África do Sul, Ronaldo, farto de andar sozinho lá na frente, e Deco, que não merecia uma despedida assim, se tenham manifestado de uma forma desabrida e azeda, fazendo supor a existência de alguma turbulência, no seio do grupo de trabalho.
Para além de se questionar as apostas de Carlos Queiroz, a quem foram satisfeitos todos os desejos e concedidos todos os meios solicitados, inclusive, verificaram-se mudanças, sem qualquer sentido, na estrutura das equipas técnicas das diversas selecções de futebol jovem, com a introdução de técnicos e gente da confiança do seleccionador nacional, sempre com o argumento demagógico de defesa do “modelo” e da reestruturação das selecções, esquecendo-se que ao nível das camadas jovens são os clubes os grandes responsáveis pelo aparecimento de novos valores.
Por outro lado, e desde que atingiu a independência financeira, fruto de uma carreira internacional onde foram maiores as indemnizações conseguidas, por despedimentos precoces, que os resultados desportivos alcançados, Queiroz começou a assumir posições desagradáveis, algumas de difícil explicação. A arrogância passou a ser mais evidente, o discurso e as atitudes mais agressivas, e a “máscara” da hipocrisia, que o tinha conduzido a lugares inimagináveis (ex.: Real Madrid), começou a cair, pese o esforço e propaganda dos seus fieis escudeiros, de jornalistas embevecidos pelo seu dom oratório e dos adeptos iludidos pela simpatia e pela imagem de competência, realçada por alguns futebolistas que, ainda garotos, tinham sido campeões mundiais.
Facto curioso e elucidativo, do carácter do professor e que contraria, em parte, a imagem que continuamente tenta “passar”, é referido na decisão do Tribunal Cível de Oeiras, que em Dezembro de 2008, condenou Carlos Queiroz a pagar 56 250 dólares a Salem Jawad, empresário que, em 1998, o levou para os Emiratos Árabes Unidos. O tribunal deu como provado que Queiroz recebeu mais tarde o dinheiro da rescisão de contrato e não pagou a comissão a que o empresário teria direito. A sentença refere ainda que, Queiroz negou inicialmente ter recebido essa indemnização, vindo a confirmá-lo depois, sendo acusado, por este motivo, de «conduta integradora de litigância de má-fé». Ou seja acusado de ter mentido em tribunal.
Num Portugal de brandos costumes com um seleccionador incapaz de motivar jogadores e adeptos, com uma selecção a deixar de jogar para ganhar, que ia deixando Portugal fora do Mundial de 2010, ainda se permite que sejam “branqueadas” as asneiras cometidas, dizendo que a participação no mundial foi positiva e que a equipa fez uma excelente exibição frente à Espanha. Para “ajudar à festa”, mais tarde saber-se-ia que, mesmo a receber 7,2 milhões de euros de prémio da FIFA pela presença da Selecção Nacional nos oitavos-de-final, a F.P.F. conseguiu apurar um prejuízo de 1 milhão de euros com a campanha da África do Sul! E o seleccionador Carlos Queiroz com direito a 10 por cento desse prémio: ou seja, uns escandalosos 720 mil euros!
Tudo acontece devido à falta de liderança de um Gilberto Madail, distraído e embriagado pelas falinhas mansas do professor, que com ele fez sempre uma espécie de chantagem psicológica, ao ponto do presidente da Federação ser incapaz de negar qualquer tipo de mordomia (bons hotéis, estágio em altitude, adjuntos locais, missões de observação, etc.), caindo no ridículo de ter de premiar, milionáriamente, um resultado julgado medíocre pela maioria dos portugueses.
Após uma serie de atitudes tão inesperadas como incompreensíveis, aliada a resultados pouco conseguidos, termina sem honra e sem glória o ciclo Queiroz na Selecção Nacional, depois de ter agredido um comentador desportivo, em plena sala de embarque do aeroporto, insultado uma brigada anti-doping, de ter apelidado de amadora a estrutura da F.P.F e de ter dirigido impropérios a um jornalista do “Sol”. Posteriormente, associou a imagem do “polvo” ao vice-presidente da federação, que afinal era uma “nuvem”, porque os muitos anos que passou no estrangeiro (17 anos), a iludir o futebol de outras paragens, originaram atitudes de agressividade, de intolerância, de falta de humildade que o distanciaram tanto dos portugueses e o tornaram tão elitista que a solução talvez estivesse em mudar o País, para agradar a tão ilustre criatura.
De facto, a tranquilidade, a discrição e o ar metódico do passado transformaram-se e deram origem a um Carlos Queiroz polémico, nervoso e onde situações menos felizes como as que esteve envolvido nunca se tinham manifestado, do mesmo modo, em Madrid ou em Manchester.
Cada vez mais isolado, ocultando a falta de comando sobre os jogadores e denunciando uma confrangedora ausência de rasgo táctico Queiroz, quer queiram quer não, sempre foi um perdedor cuja a arrogância e a vaidade nunca lhe deram tempo para ouvir as criticas, pois a sua atenção sempre foi só para aqueles que o apoiaram.
É lamentável que, tenha sido preciso desperdiçar cinco pontos frente ao Chipre e à Noruega, complicando a qualificação para o Europeu, num grupo relativamente fácil, para se aperceberem que Queiroz não tinha condições para continuar, embora, em tempos não muito distantes tenha afirmado que: «Daqui só saio morto!».
A novela Queiroz à frente da selecção, chegou ao fim e com ela a desmistificação do empenho na formação e na descoberta de novos talentos saídos, muitos deles, de nacionalizações feitas à pressa, por um individuo que a maioria dos portugueses está farta de aturar.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Premonição? Ou talvez não.

No dia 2 de Dezembro de 1994, com Carlos Queiroz a treinar o Sporting e a “consumir” o potencial de sucesso adquirido com a conquista dos dois campeonatos mundiais de sub-19, o autor destas linhas iniciava a sua participação no concurso televisivo, da SIC, “Os Donos do Jogo”, conduzido por Jorge Gabriel.
Com a finalidade de descontrair e apresentar, sumariamente, os concorrentes, Jorge Gabriel começa por questionar o signatário, nos seguintes termos:
JG: «O Luís é do Sporting e diz que o Sporting não vai conseguir ser campeão?»
Luís: «Oxalá consiga, mas eu não acredito no Carlos Queiroz, como treinador de futebol».
Colocar em causa os conhecimentos técnicos de Queiroz, em finais de 1994, era no mínimo politicamente incorrecto. Acusá-lo de incompetente era não só uma blasfémia, mas o suficiente para ser apelidado de ignorante, em termos futebolísticos.
Volvidos mais de quinze anos e com os fracassos desportivos sobejamente conhecidos, no dia em que a F.P.F. aponta a porta de saída ao seleccionador nacional, alguns classificam a frase como uma premonição ou pressentimento. Outros, mais identificados, sabem não se tratar de qualquer tipo de intuição ou palpite mas, seguramente, muito mais que isso.

sábado, 4 de setembro de 2010

A minha homenagem

Era habitual, nos bairros típicos duma Lisboa de meados do século passado, os garotos serem apelidados, pelos seus mais directos companheiros de brincadeiras, com alcunhas, por vezes depreciativas, geralmente derivadas de certa particularidade física ou moral. Praticamente nado e criado no castiço Bairro de Alcântara, onde me mantive até quase adulto, não poderia fugir aquele estigma. Assim, e logo que atingi a idade mínima para dividir os jogos e divertimentos de rua com rapazes da minha idade, fui alcunhado de “kilociclos”, fruto da ligeireza e velocidade de pernas evidenciadas por um garoto que pesava alguns quilos menos que os principais competidores.
O chegar dos anos e o aspecto de “espigadote” trouxeram mais alguns sobrenomes, e a referência à garrafa da “Canadá Dry” não foi esquecida.
Adolescente, longilíneo, sempre pronto para um bom “jogo de trapeira” e com forte propensão para os “golos de cabeça”, a entrada no Liceu D. João de Castro iria coincidir com uma alcunha que me iria marcar para o resto da vida. Simplesmente, TORRES.
Estávamos no início da década de sessenta do século passado e no Benfica começava a despontar, não só o herdeiro natural de José Águas mas, principalmente, um dos maiores goleadores do futebol português, a quem Eusébio “deve” muitos dos golos conseguidos, proporcionados pelos “amortis de cabeça” do bom gigante, José Torres.
Mais tarde, princípios dos anos oitenta, na casa de um amigo comum tive a felicidade de conhecer o ex-jogador. Trocámos algumas palavras de circunstância e abordámos alguns temas futebolísticos de então. Também não deixei passar a oportunidade de referir a importância que o seu apelido teve no meu percurso de vida, tendo ele acrescentado, com naturalidade, que com o seu filho mais velho acontecia situação semelhante, uma vez que, na escola que frequentava, era conhecido pelo “Chico Gordo”, goleador da época.
Vai hoje a enterrar um homem bom, simples, brincalhão, com sentido de humor, gigante futebolista e grande glória do futebol português, que jamais esquecerei.
É com orgulho que, actualmente, após mais de quarenta anos passados do tempo liceal, cruzando-me com colegas dos tempos passados, ainda sou apelidado de Torres em virtude de desconhecerem que tal epíteto não consta do meu bilhete de identidade.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

«Ponga los dos!»

Os conhecimentos técnicos, a experiência e a perspicácia colocadas por Jorge Jesus, na escolha dos homens para a defender a baliza benfiquista, parecem não ter sido os mais adequados nem estão a dar os “frutos” desejados. De facto, quando se privilegia a altura do “keeper”, em detrimento da colocação entre os postes, da rapidez de reflexos, da determinação nos cruzamentos, do tempo de saída da baliza, da estrutura psicológica para suportar a camisola de um grande clube, etc, o risco de falhar na escolha é muito elevado.
Com o parecer do técnico a conceder especial importância à estatura do guarda-redes, a adquirir, o caricato aconteceu e, presentemente, o Benfica possui no seu plantel dois guardiões (Júlio César e Roberto) com altura bastante acima do 1,80 m, mas com evidentes lacunas técnicas em determinadas áreas e, provavelmente, difíceis de colmatar.
No encontro realizado com o Vitória de Setúbal, respeitante à 3ª jornada da Liga Zon Sagres, e depois uma série de exibições menos conseguidas de Roberto, Jorge Jesus concedeu a titularidade da baliza encarnada ao brasileiro Júlio César.
Contudo a meio da primeira parte Júlio César, a exibir uma total inaptidão para o jogo de pés, quis adornar um lance, baralhou-se e do desentendimento entre Maxi Pereira e o guardião brasileiro surgiu um penalty, que originou a expulsão deste e implicou o regresso à baliza do mal afamado Roberto. As contingências do jogo obrigaram o espanhol a entrar em campo, mas o penalty defendido não faz dele melhor guarda-redes e as exibições pouco conseguidas, nos últimos tempos, não vão ser esquecidas tão depressa.
Quando Roberto saltou do banco, chamado inesperadamente ao jogo, para substituir um Júlio César com características, qualidades e defeitos semelhantes, para alguns dos que estavam a presenciar o encontro, veio à memoria um episódio bastas vezes divulgado pelos órgãos de comunicação desportiva e passado na tristonha tarde, para o futebol português, do dia de 11 de Março de 1934.
Tudo aconteceu em Madrid, no Estádio de Chamartin, onde a Selecção Nacional, de futebol foi derrotada pela Espanha por 9-0.
Partida importante, de apuramento para o Campeonato do Mundo, onde nem faltou a presença do Presidente da República espanhola, Alcalá Zamora, que assistiu ao desafio na tribuna do estádio.
Ribeiro dos Reis, o seleccionador nacional, não acompanhou a equipa, na viagem a Espanha porque a mãe adoecera gravemente. Acabou por ser Ricardo Ornelas, à última da hora, a ocupar o seu lugar, mas com as tácticas combinadas antes da partida.
Com o resultado já em 5-0, Soares dos Reis, então guardião do F. C. Porto simulou uma lesão e foi substituído na baliza pelo benfiquista Augusto Amaro, nas bancadas os espanhóis gritavam, provocantes, em alucinante chacota - «Ponga los dos, ponga los dos...»
Como os tempos eram outros, depois de ter perdido numa goleada humilhante, Ribeiro dos Reis ganhou horror ao cargo e nunca mais quis ser seleccionador.
Cena caricata aconteceu no dia seguinte ao encontro, onde um jogador português, ao ser interpelado pelo criado do hotel castelhano com o habitual «Desayano ?», respondeu: - Des a yuno, não. Nove a zero!

sábado, 14 de agosto de 2010

O Deslumbrado

A contratação de Jorge Jesus, no inicio da época de 2009-2010, como responsável máximo da equipa de futebol do Benfica, proporcionou ao técnico não só uma melhoria significativa das suas condições de trabalho, mas também uma responsabilização muito acima dos níveis a que estava habituado, nos clubes por onde tinha passado.
Fascinado pela oportunidade concedida, de treinar um grande clube, o técnico começou, como é habitual, por exigir a aquisição de alguns atletas que lhe oferecessem garantias de implementação do sistema de jogo, preferencialmente, utilizado (losango). Assim, começam a chegar à Luz futebolistas da confiança do treinador mas de duvidosa qualidade. Se é certo que alguns foram contratados à revelia do técnico, em fase anterior à sua chegada, a maioria foram-no com a sua total conivência e aconselhamento. Estranha-se que, jogadores como Shaffer, Patric, Kerrison, Júlio César, Weldon, Felipe Meneses, César Peixoto e Eder Luís, só para citar alguns, com poucas condições para jogar num clube com as aspirações do Benfica, não tenham sido objecto de uma cuidadosa observação e uma detalhada análise das suas reais potencialidades, quer por parte da equipa técnica quer por parte dos dirigentes encarnados. Como era de esperar os desempenhos, de alguns futebolistas, não foram os mais conseguidos, mas como o clube encarnado conseguiu o titulo máximo do futebol nacional, as duvidosas escolhas e as desastrosas opções acabaram por se diluir à medida que os resultados positivos iam sendo alcançados.
Um título de campeão, pouca habituação ao êxito, possuidor de uma cultura débil com evidentes tiques de “novo riquismo” encontravam-se reunidas as condições para que um fácil deslumbramento se apoderasse de Jorge Jesus. Também as prestações de Fábio Coentrão, ao longo da temporada, que levaram o técnico encarnado a chamar a si os louros da transformação de um mediano médio-ala, num excelente defesa-esquerdo, contribuíram para o encantamento.
Iniciada a pré-temporada e consumado o abandono de Di Maria, elemento fundamental na dinâmica imposta na interpretação do “losango”, tornava-se imperioso “ir ao mercado” tentar colmatar a saída de tão importante elemento. Mais uma vez, a perspicácia e o sentido de análise das potencialidaes, de eventuais candidatos, não foram os mais eficazes. De facto, Gaitan está longe de preencher a vaga deixada por Di Maria, uma vez que, o argentino oriundo do Boca Juniors se tem revelado, nos poucos jogos já disputados, um esquerdino de bom recorte técnico mas com evidentes dificuldades de adaptação ao lugar de médio-ala-esquerdo, com as suas qualidades a definem-no como um elemento vocacionado para desempenhar o papel de nº 10.
Depois de cometido mais um “erro de casting”, e nem convém abordar a problemática dos guarda-redes Quim, Júlio César e Roberto, Jorge Jesus, presentemente, terá de recorrer a três soluções “em carteira”:
- Dar a mão à palmatória e insiste com os dirigentes no sentido de rectificar algumas das asneiras cometidas, abrindo mais uma vez os “cordões à bolsa” para a aquisição de um ala/extremo, com características idênticas ás evidenciadas por Di Maria;
- Alterar o sistema táctico para 4x3x3, “mandando às ortigas” o tão mecanizado losango, que tão bons resultados proporcionou, na época transacta, mantendo Fábio Coentrão na posição de defesa-esquerdo;
- Ou, decidir trabalhar o meio-campo com Fábio na ala esquerda e César Peixoto a lateral-esquerdo, solução que retardou o “aparecimento” do vila-condense, e que retira dinâmica e agressividade a um jogador que necessita de espaço para “embalar” até à linha de fundo.
Curioso verificar que, após o técnico encarnado se ter auto-elogiado pela “transformação” operada, em seis meses, no rendimento de Fábio Coentrão classificando-o, inclusive, como o melhor defesa esquerdo da Europa, veja-se na contingência, por falta de visão ou ausência de perspicácia na escolha de novos elementos, de fazer regressar o esquerdino ao seu antigo posto de médio-ala que, em épocas não muito distantes, nunca o projectou para alto nível exibicional.
A derrota na final da Supertaça frente ao FC Porto terá sido “um dos males que vêm por bem”, ao evidenciar algumas das carências existentes no plantel encarnado e que os seus responsáveis máximos não poderão ignorar. Por outro lado, está a contribuir para “fazer regressar Jesus à Terra”, tornando-o mais cuidadoso no aconselhamento de novos futebolistas, afastando-o da arrogância descabida que, ultimamente, o tem caracterizado apontando-lhe o caminho da humildade, tão necessária nas criaturas com presente, mas de passado pouco mediático.